Os Jogos Olímpicos de Barcelona, os vigésimos quinto da Olimpíada, foram sediados em Barcelona, Espanha. Dentre os vários fatos que os caracterizam, destacam-se: a grande operação de reestrutura da cidade; o avanço espanhol depois do período de estagnação causado pela ditadura; as várias mudanças políticas que influenciaram diretamente na participação de vários países nos Jogos; a presença da Alemanha Unificada; o retorno da África do Sul após uma ausência de 32 anos; o retorno de Cuba, depois de dois boicotes; a desintegração iugoslava e o surgimento de novos países; o fim da URSS e a aparição temporária da Equipe Unificada; a participação de Letônia, Lituânia e Estônia como países independentes, depois de décadas sob jugo soviético; a abertura definitiva dos Jogos Olímpicos à presença dos atletas profissionais, encerrando décadas de controvérsias; a festividade dos espanhóis; o grande sucesso dos Jogos.
A cidade espanhola de Barcelona foi escolhida para sediar os Jogos da Olimpíada de 1992 no ano de 1986, no dia 16 de Outubro, na 91ª sessão do Comitê Olímpico Internacional em Lausanne, Suíça. Na terceira rodada de votações, obteve um total de 47 votos, superando a francesa Paris, 23 votos, a australiana Brisbane, 10 votos, e a iugoslava Belgrado, 5 votos (KAISER, 2000). Depois de 12 anos, os Jogos de Verão retornavam à Europa. Além disso, Barcelona tornou-se a segunda cidade de idioma espanhol a abrigar os Jogos, já que a Cidade do México fora a primeira em 1968.
Os espanhóis passaram por um grande período de estagnação por causa da ditadura do general Franco, que teve início em 1939, quando ele, apoiado pelo exército e pelos fascistas, saíram vitoriosos na Guerra Civil Espanhola (ALMANAQUE DE SELEÇÕES, 1968). O regime ditatorial prevaleceu até sua morte em 1975, terminando quando o Rei Juan Carlos I foi coroado. A partir de 1977, os espanhóis puderam eleger seus representantes através de eleições livres. Entretanto, o período franquista isolou a Espanha do resto da Europa e apenas a ajuda financeira e militar dos Estados Unidos proporcionaram relativo progresso econômico. Nas décadas de 1980 e de 1990, a Espanha obteve forte recuperação econômica (ALMANAQUE ABRIL MUNDO, 2003). De certa forma, os Jogos Olímpicos de Barcelona serviram para simbolizar a nova Espanha que despertava após mais de 40 anos na escuridão.
Barcelona realizou profundas modificações para receber os Jogos, que se transformaram num grande sucesso. Collins (1996) relata que os espanhóis construíram trinta milhas de novas estradas e um novo aeroporto, além de terem renovado o estádio Montjuic. Larry Siddons (1995, p. 147) informa com maior propriedade as transformações ocorridas na cidade: "A cidade de Picasso, Miro e Gaudi tinha utilizado os Jogos para se revitalizar. Pegou um porto dilapidado e o transformou numa bonita costa de praia. Linhas ferroviárias foram substituídas por apartamentos, para atletas, com vista do Mediterrâneo. O velho estádio no topo de Montjuic, um vestígio dos dias Pré-Franco, foi demolido e transformado numa instalação de estado-de-arte para o Atletismo. Uma formidável arena de 20.000 lugares para a ginástica foi construída na proximidade.Estradas foram construídas, linhas férreas redirecionadas e o aeroporto modernizado. Cerca de 8 bilhões de dólares, ao todo, foram gastos nas Olimpíadas e em projetos relacionados".
Os Jogos Olímpicos de Barcelona serviram para projetar a Espanha internacionalmente. Embora os espanhóis já tivessem organizado o campeonato mundial de Futebol em 1982, somente os Jogos Olímpicos permitiam uma exposição maior, pois são um evento aberto a todas as nações do mundo. Logicamente, sabemos que não é o país o responsável por abrigar os Jogos, mas sim uma cidade escolhida pelo COI. Porém, não podemos nos esquecer que a organização dos Jogos Olímpicos, pela sua grande dimensão, acaba englobando todo o país da cidade-sede, inclusive com a utilização de ajuda financeira dos governos nacionais. Politicamente, o mundo passou por intensas mudanças desde o fim dos Jogos Olímpicos de 1988. O fator principal das mudanças foi a crise do comunismo, que acabou estremecendo o mapa geopolítico da Europa. A Alemanha Oriental foi anexada à Ocidental, formando uma única Alemanha; a União Soviética entrou em colapso e originou 15 novos países independentes; a Iugoslávia enfrentava uma sangrenta guerra que culminou na sua divisão em vários países; a Namíbia tornou-se um estado independente e ingressou na família olímpica; Cuba, depois de dois boicotes, retornou aos Jogos Olímpicos e a África do Sul, após ter colocado fim à política do apartheid, novamente foi readmitida na família olímpica; a Tchecoslováquia, já decidindo sua divisão em República Tcheca e Eslováquia, preferiu competir unificada. Wallechinsky (2004, p.21) foi quem melhor expressou a situação da época: "Nos anos seguintes às Olimpíadas de 1988, o mundo foi através de mudanças políticas massivas. O Apartheid foi repelido na África do Sul, permitindo àquela nação retornar às Olimpíadas pela primeira vez desde 1960. O Muro de Berlim caiu e Alemanha Ocidental e Oriental foram reunidas, como foram o Iêmen do Norte e do Sul. O Comunismo colapsou na União Soviética e a URSS rachou em 15 países separados. Nas Olimpíadas de Barcelona de 1992, delegações independentes da Estônia e da Letônia fizeram sua primeira aparição desde 1936, e a Lituânia ingressou sua primeira equipe desde 1928. As remanescentes ex-repúblicas soviéticas competiram como a "Equipe Unificada", embora os vencedores individuais foram venerados pelo hasteamento da bandeira de sua própria república. A única controvérsia concerniu à Iugoslávia, que foi objeto das sanções das Nações Unidas por causa de sua agressão militar contra a Croácia e a Bósnia-Herzegóvina. No final, a Iugoslávia foi banida de participar em qualquer esporte coletivo, mas os atletas individuais iugoslavos foram permitidos competir como 'participantes olímpicos independentes' ".
O retorno da África do Sul ao Movimento Olímpico somente foi possível depois que o país colocou fim à sua política de Apartheid. As mudanças no país só foram possíveis com a posse de Frederik de Klerk na Presidência, em 1989. Já em Fevereiro de1990, o líder Nelson Mandela foi libertado e o CNA, Congresso Nacional Africano, uma organização negra criada em 1912, recuperou sua legalidade. De Klerk revogou leis raciais e iniciou diálogos com o CNA. Houve muitas críticas por parte da direita sul-africana. Entretanto, em 1992, um plebiscito realizado apenas para brancos legitimou sua política, sendo que 69% dos votantes apoiavam o fim do Apartheid (ALMANAQUE ABRIL, 2003). Essas mudanças internas acabaram influenciando o Comitê Olímpico Internacional a revogar o banimento que impusera aos sul-africanos na década de 60. Dessa forma, retornou aos Jogos Olímpicos, um país que havia obtido, durante o período em que esteve presente, resultados expressivos, inclusive com medalhas de ouro no Atletismo, na Natação, no Boxe e no Ciclismo. Em Barcelona, limitou-se a duas medalhas de prata, mas aderiu novamente ao quadro de medalhas, depois de uma ausência de 32 anos, pois em 1960 obtivera suas últimas medalhas.
A participação de uma Alemanha Unificada foi muito aguardada nos Jogos Olímpicos. O processo de unificação foi possível por causa da política de liberalização deflagrada pelo dirigente soviético Mikhail Gorbatchov a partir de 1985. Em 1989, milhares de alemães-orientais atravessaram para o lado Ocidental passando pela Hungria e pela Áustria. Em Outubro do mesmo ano, manifestações pela democracia provocaram a substituição do linha-dura Erich Honecker, há 18 anos no poder, por Egon Krenz. No mês seguinte, foi derrubado o Muro de Berlim e, com isso, iniciado o processo de unificação. As primeiras eleições livres da Alemanha Oriental, em 1990, elegeram a "Aliança pela Alemanha", que era favorável à unificação. No mesmo ano, impulsionada por Kohl, ocorreu a unificação monetária em julho e a política em outubro (ALMANAQUE ABRIL, 2003). Houve grande expectativa no mundo esportivo quanto à participação da Alemanha unificada nos Jogos Olímpicos e demais competições esportivas. Afinal de contas, a soma de forças da Alemanha Ocidental, poderosa no Tênis, no Hipismo e no Hóquei sobre a grama, e ainda com força em esportes como o Atletismo, a Natação, o Ciclismo, a Vela e o Remo, com a Alemanha Oriental, grande potência no Atletismo, na Natação, na Canoagem, no Remo, no Ciclismo e na Ginástica, vislumbrava a formação de uma potência olímpica imbatível. Entretanto, os prognósticos não se confirmaram. A descoberta do sistema de doping alemão-oriental e seu conseqüente desmantelamento, bem como o menor apoio dado ao esporte pelo novo governo alemão, arruinaram qualquer expectativa de sucesso. A Alemanha Unificada somou apenas 82 medalhas, 33 de ouro, ficando bem distante das 142 medalhas, 48 de ouro, que a Alemanha Oriental e a Ocidental, juntas, somaram em 1988. Ainda assim, os alemães puderam comemorar o fim de sua divisão.
A desintegração da União Soviética foi o fato de maior relevância no século passado, repercutindo fortemente na política mundial. Em 1985 o então Presidente Mikhail Gorbatchov iniciou um processo de abertura através da glasnost, que significa transparência e representava um notável abrandamento da política, e da perestroika, que significa reestruturação e foi responsável pela reforma econômica. Gorbatchov tentou conduzir as reformas de forma gradual, mas a população exigia maior rapidez, o que lhe causou a perda do controle da situação. O populista Boris Ieltsin, chefe do Partido Comunista de Moscou, foi eleito Presidente do Soviete Supremo da URSS e, três meses depois, conseguiu aprovar a soberania da Rússia em relação às instituições soviéticas, o que estimulou reivindicações autonomistas nas demais repúblicas soviéticas. Em 19 de Agosto de 1991, setores conservadores do Partido Comunista e das Forças Armadas tentaram dar um golpe de Estado para restaurar a linha dura no Governo soviético, mas a firme posição de Ieltsin e a mobilização da população frustraram a tentativa de golpe. Ieltsin iniciou o processo de desmontagem das principais instituições da União Soviética. Gorbatchov, que iniciou todo o processo de abertura, renunciou em 25 de dezembro de 1991, e a União Soviética foi extinta. Posteriormente, foi criada a Comunidade de Estados Independentes, que foi uma espécie de fórum de coordenação entre as antigas repúblicas soviéticas, mas sem um governo central (ALMANAQUE ABRIL, 2003). Toda esta agitação e transformação política tiveram impacto direto nos Jogos Olímpicos de Barcelona. Embora muitas antigas repúblicas desejassem competir separadas, isso não foi possível porque em 1991 já se haviam iniciado vários processos eliminatórios para a participação nos Jogos Olímpicos. Em muitos deles as vagas ficaram com a representação soviética, não havendo meios de serem promovidos outros torneios eliminatórios para garantir a presença independente de todas as nações surgidas com o desmantelamento da União Soviética. Collins (1996) informa que os dirigentes olímpicos encontraram uma solução para o problema ao permitir que os atletas das antigas Repúblicas Soviéticas competissem sob a bandeira da Comunidade de Estados Independentes. Entretanto, Wallechinsky (2004) explica com maior propriedade, ao lembrar que as remanescentes ex-repúblicas soviéticas, pois Lituânia, Estônia e Lituânia participaram com equipes independentes, competiram com a denominação "Equipe Unificada", embora os vencedores individuais fossem reverenciados com o hasteamento da bandeira de sua própria república. Siddons (1995) acredita que o arranjo permitiu aos novos países preservarem os treinamentos conjuntos e outras despesas, mas se esquece de verificar que o problema maior foi a inexistência de outros processos eliminatórios. Carbonetto (1995) esclarece que a Equipe Unificada foi formada por 9 nações, mas Kluge (2001) fornece números mais exatos ao informar que a delegação contou com atletas de Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Moldávia, Rússia, Tadjiquistão, Ucrânia e Uzbequistão, perfazendo um total de 11 nações. Todo o tumultuado processo de desmantelamento da União Soviética acabou comprometendo o desempenho da "Equipe Unificada" nos Jogos Olímpicos, pois muitos atletas não receberam o apoio que tinham anteriormente e ainda passaram a enfrentar os vários problemas organizacionais das antigas instituições soviéticas. Na maioria dos esportes, os atletas da antiga União Soviética atingiram resultados bem abaixo dos que apresentaram nos campeonatos mundiais de 1990 e 1991. Entretanto, em virtude do também enfraquecimento da Alemanha e dos demais países comunistas e por estar muito à frente dos Estados Unidos na época, os atletas da Equipe Unificada ainda conseguiram garantir a primeira colocação no quadro de medalhas.
A participação independente de Estônia, Lituânia e Letônia, países localizados na região do Báltico e que foram antigas repúblicas da União Soviética, foi recebida com muito entusiasmo. Os três países já possuíam uma história olímpica como nações independentes. Entretanto, durante a Segunda Guerra Mundial, foram anexadas pela União Soviética, que então buscava uma saída para o Oceano. O processo de mudanças internas na URSS possibilitou que estes países conquistassem sua independência em 1991 e, por conseguinte, a participação independente nos Jogos Olímpicos, conforme observa Wallechinsky (2004, p.21): "...Nas Olimpíadas de Barcelona de 1992, delegações independentes da Estônia e da Letônia fizeram sua primeira aparição desde 1936, e a Lituânia competiu sua primeira equipe desde 1928...". Carbonetto (1995) prefere dizer que as três repúblicas do Báltico conseguiram identidade olímpica e participaram como estados independentes, pois conseguiram se libertar do colosso comunista. Porém, seria melhor mencionar que tais repúblicas readquiriram identidade olímpica, pois já possuíam um passado independente nos Jogos.
A questão da Iugoslávia foi a mais complexa, pois desencadeou um sangrento conflito armado. A queda do comunismo no Leste Europeu fez com que a Iugoslávia abandonasse a política de um partido único. Croácia e Eslovênia, através de eleições, conduziram ao poder os nacionalistas. Em 1991, através de um plebiscito, a Eslovênia e a Croácia declararam sua independência. A Sérvia, cujo presidente era Slobodan Milosevic, opôs-se e invadiu a Eslovênia, mas teve que recuar diante da oposição da Comunidade Européia. Em Setembro de 1991, a Iugoslávia, para não se dizer Sérvia, invadiu a Croácia e ocupou um terço do seu território. A Macedônia também declarou sua independência após um plebiscito, enquanto Montenegro preferiu manter-se formando a Iugoslávia. A Bósnia-Herzegóvina proclamou sua autonomia em março de 1992 através de um plebiscito, boicotado pela minoria sérvia. O resultado desses desentendimentos foi a eclosão de uma guerra civil entre os bósnios e milícias sérvias apoiadas pela Iugoslávia. A guerra se prolongou até novembro de 1995, encerrando-se com a assinatura do Acordo de Dayton (ALMANQUE ABRIL, 2003). Carbonetto (1995) assinala que a guerra na Iugoslávia foi a primeira em solo europeu desde 1945. Logicamente, o conflito na Iugoslávia teve repercussões diretas nos Jogos Olímpicos de 1992. A sangrenta guerra nos Bálcãs fez com que Iugoslávia, Bósnia-Herzegóvina, Eslovênia e Croácia competissem separadas (KINDERSLEY 1998). Entretanto, os três últimos participaram como países independentes, enquanto a Iugoslávia, ou melhor, seus atletas, só foram permitidos competir como indivíduos. Conforme Wallechinsky (2004, p.21) a questão iugoslava foi a única a atingir os Jogos: "A única controvérsia concerniu à Iugoslávia, que foi objeto das sanções das Nações Unidas por causa de sua agressão militar contra a Croácia e a Bósnia-Herzegóvina. No final, a Iugoslávia foi banida de tomar parte em qualquer esporte coletivo, mas os atletas individuais iugoslavos foram permitidos competir como "participantes olímpicos independentes".
Siddons (1995) acrescenta que os atletas iugoslavos que participaram de forma independente nos Jogos competiram sob a bandeira olímpica. O retorno de Cuba aos Jogos Olímpicos também foi um ponto de destaque da edição de Barcelona. Após os boicotes de 1984, em Los Angeles, e de 1988, em Seul, Cuba já estava há 12 anos sem ingressar numa arena olímpica. Em Barcelona, retornaram com força total e realizaram a melhor atuação de sua história olímpica em todos os tempos e, conforme Kaiser (2000), somando 31 medalhas, 14 de ouro, 6 de prata e 11 de bronze.
A Tchecoslováquia já havia sido dividida entre República Tcheca e Eslováquia, mas preferiu competir unida pela última vez e utilizando seu velho nome. Ainda, pela primeira vez no estádio olímpico tremulou a bandeira da Namíbia, estado não mais controlado pelo regime de Pretoria (CARBONETTO, 1995).
Diante da ausência de qualquer boicote e da participação de novas nações, Carbonetto (1995) indica que o primeiro recorde dos Jogos de 1992 foi o de nações participantes.
A questão do profissionalismo finalmente foi resolvida, com o Comitê Olímpico Internacional abrindo definitivamente as portas do Olimpismo aos atletas profissionais. O esporte que simbolizou esta abertura foi o Basquetebol, que contou com a presença dos milionários jogadores da Liga Profissional norte-americana, a NBA. Segundo Carbonetto (1995) os profissionais norte-americanos do Basquetebol representavam a riqueza no esporte. Larry Siddons (1995, p. 141) descreve o processo de aceitação dos profissionais no Basquetebol: "Em Abril de 1989, a FIBA, Federação Internacional de Basquetebol, encontrou-se em Munique - a cidade da derrota de 1972 - para debater se abria ou não seu campeonato mundial e o seu torneio Olímpico aos profissionais. A União Soviética foi contra o movimento e pressionaram a FIBA, e a aprovação da medida era incerta...No dia seguinte, a FIBA adotou a mudança de regra...e as Olimpíadas, na essência, fizeram a transição final dos dias de amador de Coubertin aos dias quando todos os melhores foram bem-vindos".Collins (1996) percebe que pela primeira vez na história o COI retirou seu antigo requerimento de que todos os atletas nos Jogos fossem amadores. E Johnson (1996) utiliza palavras mais críticas ao informar que o COI encerrara sua política ineficaz e hipócrita de restringir os Jogos apenas aos amadores, acrescentando ainda que os profissionais não só passaram a serem aceitos como também idolatrados. A questão do profissionalismo sempre foi muito controversa dentro dos Jogos Olímpicos. Tanto os países socialistas como os capitalistas se utilizaram de vários recursos para burlar os regulamentos. Os socialistas listavam seus atletas como trabalhadores do estado, embora muitos se dedicassem somente aos treinamentos; os capitalistas se utilizavam da política de concessão de bolsas universitárias, o que permitia aos atletas figurarem apenas como estudantes, e não como profissionais. Acrescenta-se que muitos países utilizavam seus militares para competirem nos Jogos Olímpicos, e que mesmo nos dias atuais muitos atletas na verdade são militares com privilégios de poderem se dedicar intensamente aos treinamentos. O próprio Comitê Olímpico Internacional nunca se entendeu a respeito da caracterização de um atleta como profissional ou amador, considerando profissional qualquer atleta que recebesse esporadicamente uma ajuda financeira para participar de qualquer competição. Felizmente, esta confusa problemática acabou sendo extinta pelo fim das limitações às atuações de atletas profissionais. Por outro lado, as federações internacionais de cada esporte possuem suas próprias regras quanto à admissão de atletas profissionais, ficando o Comitê Olímpico Internacional isento de qualquer ingerência na questão.
Os Jogos Olímpicos de Barcelona foram oficialmente inaugurados no dia 25 de Julho e encerrados no dia 9 de Agosto de 1992. Contaram com a presença de 9.367 participantes de 169 países, incluindo 2.078 mulheres, que competiram em 257 provas distribuídas em 30 modalidades esportivas (KAISER, 2000). Algumas fontes indicam que o número de países participantes foi 172, entretanto Kluge (2001) esclarece que Afeganistão, Brunei, Libéria e Somália não tiveram qualquer representante disputando os Jogos, o que reduziria o número para 168. Porém, ainda houve a presença da delegação dos atletas independentes da Iugoslávia, que eleva a contagem para 169.
A cerimônia de abertura no Estádio Olímpico de Montjuic foi elaboradíssima, rica em personagens e densa em cores, reunindo mitologia e simbolismo. Ao centro do estádio, que foi forrado de azul, um espetáculo representava a luta do bem contra o mal e, como sempre em toda bela fábula, o bem se saiu vencedor (CARBONETTO, 1995). O seu momento mais memorável ocorreu quando um arqueiro, atirando para cima uma flecha acesa, acendeu a pira olímpica (COLLINS, 1996). Provavelmente, conhecendo-se a triste história dos boicotes e das tensões das edições anteriores, poderíamos afirmar que o ato representou uma flechada de luz em toda a escuridão que havia ameaçado os Jogos.
O programa de esportes foi ampliado com o ingresso do Beisebol, que havia sido esporte de demonstração por seis Jogos Olímpicos, do Badminton e do judô feminino (WALLECHINSKY, 2004). Em Barcelona, pela última vez foram incluídos esportes de demonstração no programa, convindo lembrar que o número de participantes e as medalhas distribuídas nos mesmos não entram nos registros oficiais dos Jogos, ou seja, não são somados aos números das provas efetivamente olímpicas. Hóquei sobre patins, Pelota Basca e Taekwondo foram os esportes de demonstração incluídos no programa da edição olímpica de Barcelona (KLUGE, 2001).
O COI registrou grandes ganhos financeiros principalmente com a venda dos direitos de transmissão dos Jogos para a televisão. Entretanto muitos atletas lamentaram que os horários das competições, em vários eventos, foram ajustados para agradar aos interesses da TV e das agências de publicidade (KINDERSLEY, 1998). Os marqueteiros do COI venderam grandes partes das Olimpíadas para corporações de todo o mundo, incluindo o direito de estampar o emblema dos cinco anéis em alguns produtos, como em latinhas de refrigerantes e garrafas de anti-séptico bucal. O órgão coordenador do olimpismo mundial havia aprendido com Ueberroth a forma de se fazer comércio com grandes negócios (JOHNSON, 1996). Esta nova mentalidade do Comitê Olímpico Internacional resultou do sucesso financeiro em que Peter Ueberroth transformou os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Esta política salvou os Jogos Olímpicos como evento, entretanto a busca incessante pelo lucro não pode comprometer o nível das competições esportivas e nem ir em detrimento dos interesses dos atletas, os verdadeiros protagonistas do sucesso esportivo. A Televisão influencia cada vez mais os horários em que as competições devem ocorrer. Atualmente, a grande discussão está em torno da realização das disputas de Natação dos Jogos Olímpicos de Beijing no horário matutino para agradar aos telespectadores e anunciantes norte-americanos.
As competições esportivas transcorreram sem qualquer grave incidente. Conforme dados de Kaiser (2000), a Equipe Unificada, representando um retalho da antiga União Soviética, apesar de mal preparada, ainda conseguiu liderar o quadro não-oficial de medalhas, somando um total de 112, sendo 45 de ouro, 38 de prata e 29 de bronze. Os Estados Unidos assumiram a segunda colocação, com 108 medalhas, 37 de ouro, 34 de prata e 37 de bronze. A Alemanha, unificada, ficou com 82 medalhas, 33 de ouro, decepcionando aqueles que imaginavam que a união entre Leste e Oeste produziria uma superpotência olímpica. Porém, destacaram-se mais as atuações da China, 54 medalhas, 16 de ouro, e de Cuba, 31 medalhas, 14 de ouro, que se seguiram às três primeiras colocadas.
Segundo Johnson (1996) os Jogos de Barcelona em 1992 foram bonitos, divertidos, pacíficos. A Guerra Fria havia acabado e os Jogos não foram mais cinicamente utilizados como campo de batalha ou de provas de ideologias políticas. Transcorreram de forma pacífica e os espanhóis foram festivos anfitriões, conforme expõe Siddons (1995, p.147): "Cada noite, o Ramblas, a quinta Avenida de Barcelona, pulsou com excitação". E Siddons (1995) lembra que os locais próximos se transformaram em grandes festas esportivas e que lasers rompiam os céus acima do velho palácio real conforme as competições prosseguiam.
No momento de partida, os atletas se encontraram no meio de campo para a festa do término dos Jogos, que tem trabalhado com o objetivo de encontrar sua nova dimensão. Com mais nações e mais profissionais presentes, a criação de Coubertin cresceu e deve saber se adaptar à sua nova e gigantesca dimensão (CARBONETTO, 1995). Definitivamente, o evento de Barcelona representou o início de uma nova Era nos Jogos Olímpicos, que continuaram a refletir as relações entre os países, moldando-se às profundas mudanças ocorridas nos anos anteriores e passando a refletir, a partir de então, a Nova Ordem Mundial e o processo de Globalização.
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