domingo, 25 de dezembro de 2011

1996 - ATLANTA - ESTADOS UNIDOS


Os Jogos Olímpicos de 1996, os vigésimo-oitavos da Olimpíada, foram sediados em Atlanta, Estados Unidos. Apresentaram aspectos que os caracterizaram, como: a comemoração dos Jogos do Centenário; a escolha da cidade norte-americana em detrimento dos favoritos gregos; a excessiva comercialização; a ineficiente organização; o chauvinismo norte-americano; a excepcional participação; a memorável presença de Muhamad Ali na cerimônia de abertura; o atentado terrorista no Parque do Centenário; o fraco nível técnico das competições.
A cidade de Atlanta foi escolhida como sede dos Jogos de 1996 durante a 96ª sessão do Comitê Olímpico Internacional em Setembro de 1990, em Tóquio, Japão. Na quinta rodada de votações, Atlanta superou Atenas por 51 votos contra 35 da favorita grega (KLUGE, 2001). Dessa forma, a cidade grega perdeu a oportunidade de comemorar o centenário dos Jogos no local onde ocorrera os primeiros Jogos da Era Moderna em 1896, 100 anos antes. Wallechinsky (2004) informa que muitos acreditavam que os Jogos do Centenário seriam concedidos a Atenas, mas Kaiser (2000) acredita que a decisão surpreendeu apenas os fãs ingênuos, pois a escolha combinava mais com o mundo atual dos esportes, onde predomina o dinheiro e o comércio. Segundo Colli (2004), Atenas oferecia apenas a tradição como trunfo, enquanto a cidade norte-americana contava com o apoio da Coca-Cola e da rede de televisão CNN, garantindo-lhe maiores recursos financeiros. Naturalmente, os argumentos norte-americanos acabaram prevalecendo. Miller (1996, p.8) expõe a prevalência do aspecto comercial: "A proposta por William Porter Payne, um verdadeiro procurador do Estado, junto com um grupo de amigos que persuadiram o Comitê Olímpico Internacional a conceder à cidade os direitos de abrigar os Jogos do Centenário de 1996, foi tão bem inspirada quanto otimista. Enquanto Atenas, capital da Grécia e inicial anfitriã dos inaugurais Jogos modernos em 1896, era percebida pelo mundo como uma escolha natural e sentimental, Payne acreditava que o tradicional charme sulista, combinado com perspicácia financeira e oportunidade comercial - um fator vital na equação de esporte contemporâneo - poderia ganhar o dia. E o fez".
Infelizmente, o Comitê Olímpico Internacional retirou de Atenas uma oportunidade única na história, dando maior importância aos aspectos comerciais. E, incrivelmente, pagou o preço por esta injustiça contra os gregos, pois os norte-americanos organizaram uma edição olímpica deficitária em muitos aspectos. Wallechinsky (2004, p.22) expõe os problemas organizacionais que afetaram os Jogos de Atlanta: "Desafortunadamente, tão logo os Jogos começaram, tornou-se claro que haveria maiores problemas organizacionais. O sistema de transporte foi além de abarrotado e caótico, o sistema de resultados computadorizados foi primitivo e falhou repetidamente, e os voluntários que apoiaram muitas das sedes, embora bem intencionados, foram precariamente treinados. Em adição, muitas pessoas foram intimidadas pela exploração comercial que cercava os locais de competições, particularmente nas mediações do Centennial Olympic Park".
Kaiser (2000) também lembra que os dias olímpicos foram marcados pelo caos da organização, culminando com problemas de tráfego e transporte. Ademais, ressalta que o trabalho da mídia foi insatisfatório e freqüentemente os representantes da imprensa dos países estrangeiros mantiveram suas informações atrasadas e incorretas, enquanto a mídia dos Estados Unidos esteve principalmente mais interessada nos atletas norte-americanos. Grimault (1996), complementando Wallechinsky, concorda que a informática entrou em pane, o que representou um cúmulo a um país do qual tudo se dizia belo e mágico, e que era famoso por estar na vanguarda de todo o progresso e técnica moderna. Grimault (1996), agora complementando Kaiser, ainda critica a forma chauvinista e abusivamente patriótica com que os norte-americanos retransmitiam as provas esportivas, considerando que seus atletas mereciam maior atenção. Foi realmente surpreendente a desorganização apresentada em Atlanta, algo jamais esperado de uma cidade da grande potência norte-americana. Quanto à exagerada preferência dada pela imprensa norte-americana aos seus atletas, não houve qualquer surpresa, pois semelhante experiência já ocorrera em 1984, na ocasião dos Jogos Olímpicos de Los Angeles.
Entretanto, conforme Kaiser (2000), as arenas esportivas foram construídas rapidamente e estiveram mais próximas umas das outras. Kaiser (2000), porém, lamenta que boa parte delas foram, imediatamente após os Jogos, completamente removidas, como exemplificam os casos do estádio olímpico e do maior complexo de esportes aquáticos do mundo, ou vendidas, como no caso do velódromo. Esta praticidade característica do povo norte-americano impediu que os locais de competição fossem imortalizados na história por terem recebido os Jogos do Centenário. Qualquer pessoa que deseje visitar os locais de competição, pelo menos com relação à maioria deles, só pode recorrer a vídeos e a fotografias.
Politicamente, o mundo estava passando por um período em que já não predominavam mais as discordâncias ideológicas, retirando dos Jogos qualquer ameaça de boicote. Assim, pela primeira vez em muitos anos, todos os países se fizeram presentes, mesmo aqueles que não se alinhavam aos Estados Unidos, como Cuba, Irã e Coréia do Norte.
A questão do profissionalismo, depois da abertura de 1992, não trouxe mais as polêmicas do passado. Aliás, fez-se presente com mais força no Futebol e no Ciclismo, como indica Wallechinsky (2004, p. 23):" Pela primeira vez, a cada equipe que se classificou para o torneio de Futebol, foi permitido incluir três profissionais independentemente de sua idade ou sua experiência em Copas do Mundo...O Ciclismo também abriu suas portas aos profissionais - e Miguel Indurain, da Espanha, cinco vezes vencedor da Volta da França, ganhou a medalha de ouro na prova de estrada contra o relógio"
Kaiser (2000) entende que foi possível a participação dos melhores atletas do mundo com a abertura dos Jogos aos profissionais. Entretanto, devemos salientar que os profissionais de poucos esportes ficavam fora dos Jogos pois, na maioria deles, os praticantes eram oriundos de clubes militares ou então instrutores de luta. Apenas esportes excessivamente valorizados, em sua maioria coletivos e com uma liga profissional própria, como o Ciclismo, o Basquetebol da NBA e o Futebol, não conseguiam incluir seus melhores atletas. Isso nunca foi problema para a maioria dos esportes, desde o Atletismo ao Voleibol. Por isso mesmo, apesar da inclusão, verifica-se que o desempenho dos Estados Unidos e de outros países não melhoraram nos resultados esportivos. E, atualmente, ainda se tem verificado um fortalecimento de países do antigo mundo socialista, como Rússia e China.
Os Jogos Olímpicos de Atlanta foram oficialmente inaugurados no dia 19 de Julho e encerrados no dia 4 de Agosto. Contaram com a presença de 10.310 participantes de 197 países, incluindo 3.513 mulheres (KLUGE, 2001) que competiram num total de 271 provas distribuídas em 32 modalidades esportivas (KAISER, 2004). Foram registradas participações recordes em número de atletas, que pela primeira vez na história rompeu a casa dos 10 mil, de países, chegando a quase 200, e de mulheres, ultrapassando 3.000.
O número de competições continuou aumentando, dessa vez com um recorde de 271 provas. Pela primeira vez, esportes da tendência foram incluídos, como o Voleibol de Praia e o Ciclismo de montanha, além do Softbol, uma variante feminina do Beisebol (KAISER, 2000). Wallechinsky (2004) ainda lembra a inclusão do remo para pesos leves e do Futebol feminino. O Comitê Olímpico Internacional, a partir dos anos 70, sempre esteve preocupado com o gigantismo dos Jogos mas não conseguiu conter o crescimento do número de provas. Vem adotando uma austera política de limitação no número de competidores em vários esportes. Tem sido uma ação difícil, pois com a maior popularização dos esportes a tendência é a reivindicação cada vez maior de federações esportivas para ingressarem com seus respectivos esportes no grande evento esportivo mundial, os Jogos Olímpicos.
A Cerimônia de Abertura apresentou uma inovação durante a Parada de Nações quando os atletas ingressaram no estádio a partir do seu topo, de forma que cada um dos atletas pôde ser reverenciado como herói (WALLECHINSKY, 2004). Para Grimault (1996) os destaques da cerimônia foram a homenagem a grandes atletas olímpicos do passado, como o iugoslavo Leon Stukelj, então com 97 anos e o mais velho campeão olímpico vivo na época, a romena Nadia Comaneci, o cubano Teófilo Stevenson, os norte-americanos Mark Spitz e Robert Beamon e a australiana Dawn Fraser, e o momento em que o antigo pugilista Mohammed Ali, campeão olímpico em 1960, tremendo muito por causa da doença de Mal de Parkinson, acendeu a pira olímpica. Colli (2004) destaca estes dois momentos, mas conclui que a cerimônia foi demorada e sem criatividade.
O momento de maior dificuldade para os organizadores dos Jogos ocorreu no dia 27 de Julho, às 1:40h, quando uma bomba explodiu no Parque Olímpico, uma área utilizada pelos patrocinadores dos Jogos para se mostrarem com glamour e show. O saldo foi de duas mortes e uma centena de feridos. As bandeiras foram colocadas a meio-mastro, mas os Jogos prosseguiram. Uma interrupção nem mesmo foi considerada, ao contrário do que ocorrera em Munique, em 1972 (KAISER, 2000). Wallechinsky (2004) percebe que o parque parecia ser parte das Olimpíadas, mas não foi incluído no sistema de segurança destinado aos Jogos. Grimault (1996) entende que o fato revelou que os Estados Unidos não estavam mais no grupo dos países poupados pelo terrorismo. Porém, três dias depois, o parque foi reaberto e as pessoas retornaram como se nunca tivessem se ausentado (KINDERSLEY, 1998).
As competições esportivas transcorreram de forma pacífica, porém apresentaram um fraco nível técnico, traduzidos pela pouca quebra de recordes. Na maioria dos esportes os resultados permaneceram estagnados (KAISER, 2000). Os Estados Unidos se destacaram em relação aos demais países ao conquistarem um total de 101 medalhas, 44 de ouro, 32 de prata e 25 de bronze. Foram seguidos por Alemanha, 65 medalhas, 20 de ouro, Rússia, 63 medalhas, 26 de ouro, e China, 50 medalhas, 16 de ouro. Kaiser (2000) percebe que os quatro primeiros colocados perderam espaço para outros países e Wallechinsky (2004) destaca que um total de 79 países chegaram ao pódio, sendo que 53 deles para receberem medalha de ouro.
Atlanta mostrou ao mundo os maiores, os mais complexos, os mais caros e comercializados Jogos da história (KAISER, 2000). Entretanto, eles não corresponderam às expectativas que se criou pelo mundo e nem foram condizentes com uma festa que completava 100 anos. Miller (1996) afirma que Juan Antonio Samaranch pode ter dito, com alguma razão, que os Jogos de Atlanta não foram os maiores de todos, conforme chamou-os de excepcionais durante a Cerimônia de Encerramento, mas ainda assim, acredita que eles tiveram um final perfeito. Destaca (p.182) aspectos relevantes: "Estes tinham sido Jogos excepcionais em três aspectos: As sedes tinham sido uniformemente excelentes, as performances tinham sido atenciosamente memoráveis, e o número de espectadores presentes incrementou para um recorde de 8,5 milhões de fãs, 3 milhões a mais do que já se registrara, e mais do que o total de Los Angeles e Barcelona combinados. Por aquilo, Billy Payne e seu comitê seriam prova. Samaranch pagou seu sucinto tributo: Bem feito, Atlanta! Você será sempre uma cidade olímpica".
Miller (1996) parece reconhecer o fracasso de Atlanta ao afirmar que houve problemas incontestáveis em Atlanta mas que a cidade deveria reconhecer que nenhuma Olimpíada é perfeita e que o estado da Geórgia havia dado seu coração e sua alma para o movimento olímpico e tinha sido recompensada com experiências que nunca se dissolveriam.
Colli (2004, p.41) assim descreve o fim dos Jogos de Atlanta: "No dia 4 de Agosto, com a realização de mais uma cerimônia de encerramento sem graça, Atlanta - que apresentou uma das piores organizações na história dos Jogos -, dava adeus aos Jogos Olímpicos".
Os Jogos Olímpicos de Atlanta serviram para enfatizar a hegemonia política dos Estados Unidos no mundo após o fim da Guerra Fria e o esfacelamento da antiga União Soviética. O processo de escolha da cidade de Atlanta em detrimento de Atenas já configurava a predominância dos aspectos financeiros sobre os históricos e tradicionais. Além disso, o domínio dos norte-americanos nas disputas esportivas serviu para simbolizar a hegemonia que o país passou a exercer no mundo a partir da década de 90.

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